Por que arte, música e livros voltaram a falar de Deus

Por que arte, música e livros voltaram a falar de Deus

A cena cultural contemporânea tem mostrado um interesse crescente pelo sagrado. De astros pop a grandes editoras, passando por séries de streaming, a espiritualidade deixou de ser tema marginal para ocupar o centro de produções de grande alcance. O caso mais recente e visível é o da cantora catalã Rosalía, que se apresenta nesta segunda-feira (10) na Farmasi Arena, no Rio de Janeiro, em turnê do álbum “Lux”, trabalho construído a partir de biografias de santas católicas e da obra de místicas cristãs, islâmicas e budistas.

Música pop e o retorno ao sagrado

Rosalía não está sozinha nessa chave. Justin Bieber, que é evangélico, levou ao palco da final da Copa do Mundo uma canção ligada à própria trajetória de fé. Anitta incorporou referências ao candomblé em seu disco mais recente, “Equilibrivm II”, e recentemente declarou, em entrevista à televisão, que não tem mais receio de assumir publicamente sua ligação com a macumba. A britânica M.I.A. dedicou seu último álbum a imagens do Apocalipse bíblico, enquanto a americana Azealia Banks lançou um trabalho estruturado como uma meditação guiada.

Streaming e cinema investem em produções religiosas

No audiovisual, a série “The Chosen”, sobre a vida de Jesus, se tornou fenômeno de público graças à qualidade da produção e à abordagem humana das Escrituras. Financiada pelos próprios espectadores, a atração é exibida no Brasil por SBT, Netflix e Prime Video, e suas últimas temporadas também passaram pelos cinemas, atraindo públicos expressivos. A sexta leva de episódios, voltada aos momentos finais de Cristo, estreia em novembro. O sucesso comercial de filmes de temática cristã, como “O som da liberdade” e “A forja”, reforça a tendência, assim como produções como “Os santos”, de Martin Scorsese, “Casa de Davi” e a animação “O rei dos reis”. Uma sequência de “A paixão de Cristo”, de Mel Gibson, chega às telonas no próximo ano. No mercado nacional, os Estúdios Globo firmaram parceria com a editora Mundo Cristão para adaptações de obras de ficção religiosa.

Editoras criam selos dedicados à espiritualidade

O mundo literário segue o mesmo movimento. Grandes conglomerados como Penguin Random House e HarperCollins lançaram recentemente selos voltados exclusivamente a temas espirituais, incluindo, no caso britânico, uma coletânea com escritos do Papa Leão XIV. No Brasil, a Rocco criou um selo ecumênico dedicado ao tema, e a Zahar amplia seu catálogo com obras de cunho religioso. Romances recentes, como “Apneia”, de Esther Faingold, e “Mártir!”, do escritor iraniano-americano Kaveh Akbar, também exploram a busca por transcendência como resposta ao sofrimento contemporâneo.

O que explica esse interesse coletivo pelo sagrado

Para especialistas ouvidos sobre o fenômeno, a explicação passa por múltiplos fatores. Pesquisadores em ciência da religião apontam que artistas funcionam como sensores culturais, captando o retorno da religiosidade ao espaço público. Segundo essa leitura, a modernidade tentou restringir a fé à esfera privada, mas ela nunca deixou de moldar identidades coletivas — no Brasil, por exemplo, através do catolicismo e das religiões de matriz africana. A maior visibilidade de vertentes antes marginalizadas, como as evangélicas e as de origem africana, teria dado a artistas mais liberdade para expor sua fé publicamente. Outra hipótese é que o excesso de estímulos tecnológicos e a sensação de falta de controle sobre algoritmos e inteligência artificial estejam levando as pessoas a buscar consolo em dimensões espirituais. Editoras também associam o fenômeno a um desejo de refúgio diante das crises contemporâneas, da pandemia ao temor de colapsos ambientais, que reacendeu discussões sobre finitude e sentido da vida.

Conclusão

Esse retorno do sagrado à cultura de massa não é isento de contradições: para alguns analistas, parte do movimento reflete avanço de discursos mais conservadores, enquanto outra vertente propõe leituras disruptivas e até feministas da tradição religiosa, como ocorre com o interesse por biografias de freiras históricas. De qualquer forma, o fenômeno indica que a busca por transcendência segue central para entender comportamentos de consumo cultural, do pop à literatura, passando pelas telas de cinema e streaming.

Por que tantos artistas estão abordando temas religiosos atualmente?

Especialistas apontam fatores como o retorno da religião ao debate público, o desconforto gerado pelo excesso tecnológico e a busca por sentido diante de crises globais recentes.

O álbum “Lux”, de Rosalía, é baseado em quais referências?

A obra se inspira em hagiografias de santas católicas e em textos de místicas cristãs, islâmicas e budistas, como Hildegarda de Bingen, Simone Weil, Rabia al-Adawiyya e Vimalā.

Qual é o sucesso da série “The Chosen” no Brasil?

A produção sobre a vida de Jesus é exibida por SBT, Netflix e Prime Video, e suas últimas temporadas levaram quase um milhão de espectadores cada uma aos cinemas brasileiros.

Como as editoras têm reagido a esse interesse pela espiritualidade?

Grandes grupos como Penguin Random House e HarperCollins criaram selos dedicados ao tema, enquanto editoras brasileiras como Rocco e Zahar ampliaram seus catálogos com obras espirituais.

Esse movimento cultural tem relação com o conservadorismo?

Segundo pesquisadores, parte da aproximação com temas religiosos pode reforçar discursos mais fechados, mas há também abordagens que propõem leituras críticas e progressistas da tradição religiosa.

Fonte: Brasília Agora

Compartilhe
Clique abaixo para ouvir nossa web rádio

Clique abaixo para assistir nossa WEB TV Parceira: BDC TV