Blue Monday: por que o “dia mais triste do ano” é um mito nascido no marketing

A segunda-feira de 19 de janeiro de 2026 voltou a circular nas redes sociais e em manchetes como o Blue Monday, o suposto dia mais deprimente do ano. A ideia, no entanto, não tem origem em consenso científico nem em pesquisa epidemiológica sólida. Trata-se de uma criação publicitária que reaparece a cada janeiro por ser fácil de explicar e combinar com o clima de recomeço, contas a pagar e cobrança por produtividade.
Uma fórmula que virou tradição na mídia
O conceito ganhou fama no Reino Unido a partir de uma ação de marketing do setor de viagens, que juntou tempo cinzento, ressaca das festas, dívidas e metas abandonadas numa suposta equação para definir o pior dia do ano. Entidades de saúde mental classificam a data como mito e cálculo sem fundamento, lembrando que não existe dia oficial para o sofrimento psíquico e que tratar a depressão como evento de calendário pode banalizar dores reais. O divulgador científico Ben Goldacre chegou a descrever o Blue Monday como produto de relações públicas reciclado todos os anos pela imprensa.
O que é real: humor sazonal e depressão
Mesmo sem validação científica para a data, é verdade que algumas pessoas se sentem pior no inverno, sobretudo em países com pouca luz solar. O NHS, serviço público de saúde britânico, descreve o Transtorno Afetivo Sazonal como um tipo de depressão típico dessa estação, que pode exigir tratamento com psicoterapia, antidepressivos e, em alguns casos, fototerapia. Estudos acadêmicos apontam variações conforme a latitude, maior ocorrência entre mulheres e início mais comum no começo da vida adulta.
A depressão é um problema de saúde pública global, mas não se concentra num único dia. A Organização Mundial da Saúde estima que cerca de 4% da população mundial conviva com a doença, com grande impacto em sofrimento e incapacidade.
No Brasil, janeiro é verão, e a lógica de dias curtos e frios não se aplica. Ainda assim, o mês pode reunir pressões que afetam o humor, como aperto financeiro, volta à rotina de trabalho, conflitos familiares, solidão e expectativas irreais de mudança de vida. São fatores individuais e de contexto, e não um fenômeno universal calculável.
Saúde mental não é meme
O problema não está em falar de dias difíceis, mas em vender a ideia de um pico oficial de tristeza, muitas vezes associado a produtos e soluções rápidas. A organização britânica Samaritans, por exemplo, propõe o Brew Monday, um convite ao encontro e à conversa em vez do rótulo negativo.
Quem sente tristeza persistente, desesperança ou sensação de não dar conta não precisa esperar passar. No Brasil, o CVV atende gratuitamente, 24 horas, pelo telefone 188 e também por chat.
Fonte: Bem-Estar DF – leia o conteúdo original | Foto: Frank Vincentz/Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)







