Berberina não é “Ozempic natural”: o que a ciência mostra sobre o suplemento

Berberina não é “Ozempic natural”: o que a ciência mostra sobre o suplemento

Vendida em cápsulas e apelidada de “Ozempic natural” por influenciadores, a berberina voltou a circular nas redes como promessa para emagrecer, controlar a glicose e melhorar o colesterol. A comparação com remédios como semaglutida e tirzepatida, porém, é tecnicamente frágil e pode confundir o consumidor.

A berberina é um alcaloide presente em plantas como a Berberis vulgaris. Ao contrário dos agonistas de GLP-1, ela não imita diretamente esse hormônio e não tem o mesmo nível de evidência para perda de peso. As pesquisas avaliam seus efeitos em glicose, colesterol LDL, triglicerídeos e inflamação, mas os resultados não permitem tratá-la como solução para obesidade.

O que dizem os estudos

Um ensaio clínico publicado em 2026 no JAMA Network Open acompanhou 337 adultos com obesidade e doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica (MASLD), sem diabetes, que tomaram berberina ou placebo por seis meses. A substância não reduziu de forma significativa a gordura visceral nem a gordura no fígado. Por outro lado, houve quedas maiores no colesterol LDL, na apolipoproteína B e na proteína C reativa ultrassensível, marcador de inflamação.

Revisões recentes apontam possíveis benefícios em componentes da síndrome metabólica, como glicemia de jejum, triglicerídeos e circunferência abdominal. Muitos estudos, no entanto, têm acompanhamento curto, poucos participantes, doses e formulações variadas e populações muito específicas, o que pede cautela.

Natural não significa seguro

Remédios como semaglutida e tirzepatida passam por estudos regulatórios e têm indicações definidas; a berberina vendida como suplemento não passa pelo mesmo crivo. Segundo o Centro Nacional de Saúde Complementar e Integrativa dos Estados Unidos, os efeitos adversos mais relatados são gastrointestinais: náusea, dor abdominal, distensão, constipação e diarreia. A substância pode interagir com medicamentos como a ciclosporina, usada por transplantados, e já foi associada ao acúmulo prejudicial de bilirrubina em recém-nascidos, com risco de lesão cerebral. Por isso, não deve ser dada a bebês e pode ser insegura na gravidez e na amamentação.

Quem usa remédios para diabetes, pressão, colesterol, anticoagulantes, imunossupressores ou outros de uso contínuo precisa de cuidado redobrado, já que o uso sem orientação aumenta o risco de hipoglicemia, queda de pressão, efeitos gastrointestinais intensos e interações.

Como checar a regularidade

No Brasil, a Anvisa determina que suplementos usem apenas constituintes autorizados e dentro de limites definidos, e oferece consulta de ingredientes, rotulagem e alegações aprovadas. Produtos “ativos” nas consultas estão regularizados; “inativos”, não. Para suplementos regularizados em vigilâncias locais, a orientação é procurar a vigilância sanitária do município fabricante. Suplemento não pode ser anunciado como tratamento de doença nem como substituto de acompanhamento médico.

Em resumo, a berberina pode provocar mudanças modestas em alguns marcadores, mas não há base sólida para vendê-la como tratamento para emagrecer. O cuidado da obesidade envolve avaliação clínica, alimentação, atividade física, sono, saúde mental e, quando indicado, medicamentos aprovados ou cirurgia. Antes de usar, a recomendação é conversar com médico ou nutricionista, sobretudo em caso de diabetes, doenças do fígado ou dos rins, pressão baixa, histórico cardiovascular ou uso de remédios contínuos.

Fonte: Bem-Estar DF – leia o conteúdo original | Foto: SABENCIA Guillermo César Ruiz/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

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